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para a única Maria que já amei

você é uma miragem fluída-orgânica-viva presa nas memórias que inventei a fim de te manter por perto os desenhos e rabiscos e fotos sem nomes os rostos quase apagados me iludem sou constantemente transportada para uma cidade que não conheço te faço de cabelos longos e brancos te crio para manter algum semblante sorridente por perto a dor na cabeça depois de usar qualquer acessório para prender o cabelo herdei de você a sensibilidade no alto da cabeça os olhos meio puxados o pavor ao grito arrumo minha cama pela manhã e penso que a senhora poderia ter me instruído a isso o meu nome quase foi o seu nome eu não tenho o seu sobrenome mas o meu nome quase foi o seu nome e o nome da sua mãe vocês duas estariam presentes em mim pelo nome que sua filha iria me dar mas o meu nome acabou por evocar uma dose daquilo que nos falta a alegria e nessa vida de desencontros lamento nossos tempos diferentes não conheci sua voz e por vezes choro em vão o buraco que construí ao seu redor os abraços que nu...

Alnilam

gostaria de entrar nos beijos uma vez mais habitar os tecidos e me perder sem saber qual terá sido o primeiro o mistério é antes de qualquer coisa uma imagem lançada no impossível só ali ele existe o amor não é um mistério seu efeito ultrapassa toda ideia de impossibilidade no amor os tempos são no amor todo céu é visto a olho nu você me contaria sobre o tamanho dos astros, sobre suas cores e formas?

O espaço sideral

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Ainda não sabemos se chegaremos a Marte nesse século. A Lua ainda não é um destino para as férias de julho. Tudo que temos são hipóteses, desejos, ideias mal acabadas – algo que a imaginação nos dá. Como deve ser avistar a Terra lá do alto? Uma imagem fabulosa, com certeza. Enquanto lavo as louças fico tentando desenhar essa cena: ver a Terra lá do alto. Talvez por isso passe tanto tempo vendo documentários e séries que tentam contar como é o espaço sideral. Digo tentam contar por que nunca contam, de fato. Não conseguem. Como descrever o indescritível vão negro que cerca o planeta onde moramos? Tudo falha, como geralmente falham as coisas que a linguagem tenta traduzir. As imagens, por mais lindas que sejam, não me dão um cheiro, por exemplo. Qual será o cheiro do espaço fora da Terra? É evidente que uma tela, até hoje, não me permite sentir os cheiros do mundo, então invento, finjo que sinto. Para mim, o espaço sideral cheira a alho e cebola dourando na panela, segundos antes do feij...
meu pai se chama Manoel o poeta, no entanto, se chamava Manuel às vezes chamam meu pai de Manel ou de Manu, movimento mais raro, não tão raro quanto o nome de alguém o nome é a porta de entrada aos desejos postos diante dos olhos meu pai não é poeta, no entanto, seu nome o denuncia

para Larinha

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para Larinha te desejo uma vida possível com todas as possibilidades possíveis te desejo o encontro real de corpos e uma abertura a vida te desejo tudo isso enquanto você dirige desejo te encontrar sempre nessa vida com vida te rondando te cercando desejo poder lhe desejar vida e mais anos de vida nesse tempo de vida que nós temos o que eu sei de você é muito pouco quase nada pense bem o que eu sei é o que leio de você e o que você me deixa ler e isso não me faz te amar menos me faz desejar mais e esse desejo me faz querer te ver na vida sempre mais desejo que seus olhos de peixe morto estejam em contato com a vida bem de perto eu desejo que você deseje os seus desejos como nenhuma outra pessoa pode a vida não é só um dia após o outro ela é soma desses acúmulos todos de todos os dias

mil metros

do mar não se vê as janelas do mar não se vê as grades sobrevoo o mar pela terra mil metros acima e o sangue escorre do mar não se vê os olhos tristes de quem chora e rega com desespero os dias que se passam mil metros acima do mar

o emergir da língua

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Sem título, Manubu Mabe, 1998. do mar nasceu a língua a língua não veio das estantes veio do mar do cruzamento das ondas os tempos se encontram no mar no levantar das ondas a língua nasceu da espuma do mar