Quando ouço os martelos
Um canto. Uma voz. Escuto atenta todas as notas. Cada vez que o martelo bate, minha mão treme. Ouço as pisadas nos pedais. São tão firmes. E é com atenção que acredito nas decisões que toma sob as teclas. Usa suas mãos com determinação. Sabe os motivos, e direciona com dedos o caminho à seguir. Não entendo nada disso. Quero dizer, não entendo a razão de me fascinar tanto. Escuto as execuções impecáveis de cada trinado, de cada ligadura. E, ainda sem entender, transborda sob minha pele cada nota, cada tom, e cada silêncio. Escuto com prudência e medo. Medo de não ser mais capaz de compreender as figuras musicais que saem daí. Medo de ignorar algum legato, e ficar dispersa no ar, como vento que voa livre. Gosto das cinco linhas, de como sou livre em segurança. Comedida, você diz. E aprendi a ser livre na segurança de pousar sob o pentagrama simétrico, reto, linear, e perfeito. Se descanso ali, sei que sou livre em qualquer lugar, a qualquer hora. Indo de uma pág...