Quando ouço os martelos

Um canto. Uma voz. 
Escuto atenta todas as notas. Cada vez que o martelo bate, minha mão treme. Ouço as pisadas nos pedais. São tão firmes. E é com atenção que acredito nas decisões que toma sob as teclas. Usa suas mãos com determinação. Sabe os motivos, e direciona com dedos o caminho à seguir. 
Não entendo nada disso. Quero dizer, não entendo a razão de me fascinar tanto. Escuto as execuções impecáveis de cada trinado, de cada ligadura. E, ainda sem entender, transborda sob minha pele cada nota, cada tom, e cada silêncio. 
Escuto com prudência e medo. Medo de não ser mais capaz de compreender as figuras musicais que saem daí. Medo de ignorar algum legato, e ficar dispersa no ar, como vento que voa livre. Gosto das cinco linhas, de como sou livre em segurança. Comedida, você diz. E aprendi a ser livre na segurança de pousar sob o pentagrama simétrico, reto, linear, e perfeito.
Se descanso ali, sei que sou livre em qualquer lugar, a qualquer hora. Indo de uma página a outra temendo todas as notas que ainda não toquei. Temendo cada pausa, cada timbre, cada nuance. 
Sou livre ali, porque escolhi está. Sou livre ali, porque nada é realmente estável. Cada página, cada folha, uma realidade diferente das que conheço. 
E mesmo que execute tudo, todos os dias, não irá soar igual. Cada vez, sai melhor. Sai com mais clareza, mais presteza, mais forte. 
Adiciono suas firulas, suas batidas, sua forma de suavizar e de penetrar nos ouvidos mais enfadonhos. Com os olhos fechados, fones no ouvido, e um som, uma voz. Não sai de você. São obra dos martelos. Eles falam. Te ouço claro. Soa claro. Soa próprio. E não é você, é o piano.

Print feito durante a execução do vídeo "Luciano Supervielle - Suite Para Piano y Pulso Velado" Realizado por Agustín Ferrando Trenchi (Mónaco). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3VaXt_MiCXs  

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