ATO


IV

Há em mim, os outros que já não são monstros, nem espectros.
Vejo por sobre os ombros aquilo se foi. O que não dói mais.
Vejo dentro as afrontas e todo desdém que jogaram sobre mim.
Nada dura muito tempo.
Repeti.
Como o único verso capaz de me recolocar no lugar.
E aqui, é onde me lembro dos outros vinte ou vinte um que me remanejam para dentro.
Como os únicos obstinadamente capazes de me recolocarem no lugar.
Entendi a pouco tempo que a morte é um risco permanente na face.
Uma marca permanente no corpo.
Na pele.
Nos jornais.
Na calçada da minha casa.
E estou a ponto de me riscar.
De ficar.
Lá.
Porque me lembro que nada dura muito tempo.
Porque lembro que não há cura.
Porque lembro que ainda estou.
Aqui.

V

Não somos nós
Não somos dois
Não somos
Só nós
Somos aquilo que se esconde
Que se nega
Que omite
Mas somos algo
Para além do sintomático
Do fatalismo
Da constatação
Não somos só isso
Somos algo além disso
Além do alcance das mãos
Além do toque errante
E da turva forma de dizer não
Somos algo que não se concretiza
Algo que engana e esconde
E acaba
Por ser algo escondido em si
Fim em si mesmo
Sem objetivo
Fim de si
Ali
Aqui
Não somos nós
Nem dobras
Nem amarrações
Somos a prova do inconsciente
Do evitável
Até
Do que não inunda
Do que é morno
Fatal
Dual
Lento
Não somos dois
Nem nada
Somos o que resta
No canto
E logo será removido
Somos a amargura
A prova final
De que é aqui
Onde nada se faz
Nada se diz
Aqui
Onde tudo se acaba
E acaba por nunca ser dito
Porque nunca precisa ser dito
Porque não querer sair
Não somos porque não é preciso ser nem dizer nem medir
Não somos nada
Nem as sobras no prato

VI 

Me debruço sobre os soluços
Vejo a mosca morta
Deixei que ficasse no canto
Morrendo aos poucos
Lentamente
Durou uma semana
Como a unica resistência capaz de viver ali
Ao lado
Próxima aos pés
Ao chão
Como a unica chance de ser pisada
Massacrada
Deixada para morrer
As moscas
As outras tantas
As que nunca apareceram
As que nunca chegaram
Morreram antes
Antes do meio
Antes do fim
Morrem entre o meio e o fim

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