para a única Maria que já amei

você é uma miragem fluída-orgânica-viva
presa nas memórias que inventei a fim de te manter por perto
os desenhos e rabiscos e fotos
sem nomes
os rostos quase apagados me iludem
sou constantemente transportada para uma cidade que não conheço
te faço de cabelos longos e brancos
te crio para manter algum semblante sorridente por perto
a dor na cabeça
depois de usar qualquer acessório para prender o cabelo herdei de você
a sensibilidade no alto da cabeça
os olhos meio puxados
o pavor ao grito
arrumo minha cama pela manhã
e penso que a senhora poderia ter me instruído a isso
o meu nome quase foi o seu nome
eu não tenho o seu sobrenome
mas o meu nome quase foi o seu nome e o nome da sua mãe
vocês duas estariam presentes em mim
pelo nome
que sua filha iria me dar
mas o meu nome acabou por evocar uma dose daquilo que nos falta
a alegria
e nessa vida de desencontros lamento nossos tempos diferentes
não conheci sua voz
e por vezes choro em vão
o buraco que construí ao seu redor
os abraços que nunca serão nossos
ou as férias fora da sua casa
a casa perdida
abandonada
deixada para trás
isso começou em você
é o que sei
esses sintomas ferozes de uma vida cercada por aflições
eu lamento nunca ter visto seus olhos ao vivo
serena mulher que iniciou o mundo que conheço

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