O espaço sideral
Ainda não sabemos se chegaremos a Marte nesse século. A Lua ainda não é um destino para as férias de julho. Tudo que temos são hipóteses, desejos, ideias mal acabadas – algo que a imaginação nos dá. Como deve ser avistar a Terra lá do alto? Uma imagem fabulosa, com certeza. Enquanto lavo as louças fico tentando desenhar essa cena: ver a Terra lá do alto. Talvez por isso passe tanto tempo vendo documentários e séries que tentam contar como é o espaço sideral. Digo tentam contar por que nunca contam, de fato. Não conseguem. Como descrever o indescritível vão negro que cerca o planeta onde moramos? Tudo falha, como geralmente falham as coisas que a linguagem tenta traduzir. As imagens, por mais lindas que sejam, não me dão um cheiro, por exemplo. Qual será o cheiro do espaço fora da Terra? É evidente que uma tela, até hoje, não me permite sentir os cheiros do mundo, então invento, finjo que sinto. Para mim, o espaço sideral cheira a alho e cebola dourando na panela, segundos antes do feijão chegar. Esse cheiro! Será que o espaço sideral cheira bem assim? Ou será que os lixos espaciais estragaram tudo? Isso as belas imagens não me contam. Tenho um pouco de pena dos astronautas, eles comem umas coisas esquisitas, de gosto duvidoso e ficam longe das pessoas que amam. Por outro lado, é de uma sorte sem precedentes ver a Terra de cima, flutuar no espaço e chorar vendo o Sol bater no hemisfério norte, depois no sul. Ver tudo bem do alto; a vida suspensa. O silêncio permeando todos os dias, horas, minutos, segundos... o silêncio. Fascinante! A Terra nunca faz silêncio. Quer dizer, a Terra não fala, claro, seus habitantes que não calam a boca, estão sempre falando, chorando, resmungando, gritando, festejando, celebrando etc. Não tem uma brechinha para o silêncio. Ruídos e ruídos e ruídos. Digo tudo isso sobre o espaço sideral, mas não me deixo enganar, quando a humanidade for para Marte, ou para a Lua, ou orbitar ao redor do nosso planeta para chegar em algum parque de diversão espacial, peço que me deixem na Terra.
– Ainda falta limpar o banheiro!
