Postagens

O espaço sideral

Imagem
Ainda não sabemos se chegaremos a Marte nesse século. A Lua ainda não é um destino para as férias de julho. Tudo que temos são hipóteses, desejos, ideias mal acabadas – algo que a imaginação nos dá. Como deve ser avistar a Terra lá do alto? Uma imagem fabulosa, com certeza. Enquanto lavo as louças fico tentando desenhar essa cena: ver a Terra lá do alto. Talvez por isso passe tanto tempo vendo documentários e séries que tentam contar como é o espaço sideral. Digo tentam contar por que nunca contam, de fato. Não conseguem. Como descrever o indescritível vão negro que cerca o planeta onde moramos? Tudo falha, como geralmente falham as coisas que a linguagem tenta traduzir. As imagens, por mais lindas que sejam, não me dão um cheiro, por exemplo. Qual será o cheiro do espaço fora da Terra? É evidente que uma tela, até hoje, não me permite sentir os cheiros do mundo, então invento, finjo que sinto. Para mim, o espaço sideral cheira a alho e cebola dourando na panela, segundos antes do feij...
meu pai se chama Manoel o poeta, no entanto, se chamava Manuel às vezes chamam meu pai de Manel ou de Manu, movimento mais raro, não tão raro quanto o nome de alguém o nome é a porta de entrada aos desejos postos diante dos olhos meu pai não é poeta, no entanto, seu nome o denuncia

para Larinha

Imagem
para Larinha te desejo uma vida possível com todas as possibilidades possíveis te desejo o encontro real de corpos e uma abertura a vida te desejo tudo isso enquanto você dirige desejo te encontrar sempre nessa vida com vida te rondando te cercando desejo poder lhe desejar vida e mais anos de vida nesse tempo de vida que nós temos o que eu sei de você é muito pouco quase nada pense bem o que eu sei é o que leio de você e o que você me deixa ler e isso não me faz te amar menos me faz desejar mais e esse desejo me faz querer te ver na vida sempre mais desejo que seus olhos de peixe morto estejam em contato com a vida bem de perto eu desejo que você deseje os seus desejos como nenhuma outra pessoa pode a vida não é só um dia após o outro ela é soma desses acúmulos todos de todos os dias

mil metros

do mar não se vê as janelas do mar não se vê as grades sobrevoo o mar pela terra mil metros acima e o sangue escorre do mar não se vê os olhos tristes de quem chora e rega com desespero os dias que se passam mil metros acima do mar

o emergir da língua

Imagem
Sem título, Manubu Mabe, 1998. do mar nasceu a língua a língua não veio das estantes veio do mar do cruzamento das ondas os tempos se encontram no mar no levantar das ondas a língua nasceu da espuma do mar

o amor faz a linguagem se desmontar

a linguagem não dá conta de dizer do amor isso é a linguagem não dá conta da voz do amor a linguagem falha a linguagem não dá conta de dizer do amor essa categoria robusta que contorna corpos e dizer com ajuda da linguagem o que não pode proferir o som que o amor gera é inaudito ouvido algum já o escutou o som de um trovão a linguagem não abarca tudo ela escorrega escorre o silêncio de uma voz é o som do amor invadindo a linguagem ele diz do amor o que a linguagem não dá conta o som do silêncio no amor talvez o som sempre falhe diante do amor

percurso ou caminho ou conjunto

o corpo está em um ambiente a cabeça habita o fundo o não centrado o deslocado ao norte o corpo ambiente durável sem ser eterno o lugar da concepção do que pode ser mesmo que tentem subverter ele habita um outro lugar pensar no que se dá a ver daqui em uma distância que pode durar apenas uma hora e meia inunda o que me atravessa: ir em direção ao fundo ou mais fundo o mais profundo pode ser a pele ir a fundo é também ir sem chão ir cada vez mais a fundo percorrer a pele do outro o que eu vejo diante de mim: um corpo aberto o desejo aberto ao corpo o desejo inundando o corpo o corpo e o desejo um trajeto conjunto o que encontro diante de mim: uma abertura o que me convida a existir em conjunto dança de corpos a troca de cheiros e líquidos e substâncias dentro daquilo que é pura existência do amor