(hoje)
tenho morado na dor. onde nenhum ar é leve nenhuma onda é suave e eu já não sou nada. onde nada sobressai ou sobrevive. tenho morado na dor por falta de lar. por falta de ar. por falta de amar. tenho morado na dor porque amei demais. ou porque nunca soube do amor. mas tenho morado na dor porque só lá posso amar. nada aqui é sobre a dor do amor ou sobre amar e doer. nada aqui é sobre sobreviver ao amor ou ao desamor ou a um tipo qualquer de dor. nada aqui é sobre um outro. nada aqui é sobre um outro além de mim. sobre um amor além do próprio. além do óbvio que nasce aqui. tenho morado na dor porque dói porque mata porque me sufoca respirar. tenho morado na dor porque qualquer tentativa de sair correndo não resultou não resolveu nem amenizou. tenho morado na dor porque mesmo quando não faz sentido tudo que tenho é isso aqui. é onde moro (hoje). onde me sufoco. e morro. e nasço. todos os dias. tenho morado na dor. como forma de sobreviver. ou tentativa de sobrevivência. tenho morado na dor porque nenhum outro lugar é tão real tão leal e assustador. preciso (hoje) sentir que morri para reanimar algo dentro de mim. preciso sentir que morro todas as vezes que durmo para poder levantar. preciso saber e lembrar que o fim é próximo e não dá para morar eternamente aqui. mas preciso morar (hoje) aqui. precisarei ficar até amanhã. ou depois. mas não acreditar nessa duração. não reforçar essa duração. não alimentar essa estadia. preciso morar na dor (hoje). quem sabe até amanhã. e ir. não fugida ou me esquivando. preciso saber até quando é possível ficar morando aqui. porque tenho morado na dor como forma de compreensão. de exclusão. de abstenção. tenho morado na dor porque é o único lugar (hoje) que mostra a realidade crua nua e indiscreta que preciso enfrentar. tenho morado na dor. lugar duro úmido difícil e deplorável. tenho morado na dor porque preciso dela (hoje) para entender que amanhã é um outro dia não tão distante daqui.