Poço

desci o mais fundo que pude para garantir
que as feridas fossem feitas
refeitas
e nunca compensadas
cheguei a juntar cacos
cortei os dedos
quase arranquei a mão
desci
desci
o mais fundo que pude

Pude enxergar a mão  pousou suave, macia e delicada  me envolver e alimentar, com alguma presteza que nunca esperei e com uma determinação assombrosa. Surgia em mim, com uma timidez desnecessária, uma fúria desconhecida. 
Poderia ter sobrevivido apenas com uma dose. Mas eu sabia, precisava me encher para satisfazer a alma. O alimento era irreconhecível. Meu paladar, já muito gasto, foi obrigado a tolerar o não sabor e com repulsa engolir todos os pedaços. Uma substância que só desce com o auxílio de um colher de pau que o empurre goela abaixo. 
Desceu. Assim como eu desci. E sem volta, permaneci. 
Depois de tantos arranhões soube que só um sopro, muito forte, levaria para longe todo sangue que ficou sob a pele. Torcendo para que não ardesse me contentei. Fechei os olhos. Garanti que tudo passaria rápido. Eu sobreviveria. 
Percebi que a substância asquerosa, que desceu cortando, havia me dado suporte para viver. Sem compreender porque aquela mão tinha sido tão generosa, mantive minha cabeça erguida em busca de uma saída. Buscava uma porta, um desfecho que me permitisse caminhar sem a maldita bengala.
O encontro entre o esperado e o já determinado me fez olhar para o outro lado. Onde a janela não passava de um buraco na parede. E toda a busca por uma porta morreu ali. Diante de tal absurdo me declarei culpada. Desde o começo, nutrindo um ódio desprezível pela figura de uma unica mão. Só estava presa porque queria. Porque queria continuar comendo do alimento. Incapaz de reparar naquele lugar que escondia o Sol. Como tampei, com todos os dedos e com a alma, todas as chances de sair. Me fechei em mim. Morri, todos os dias que me foram necessários. Esperei pela salvação. 
Após maltratar meu ser soube que ninguém me machucaria mais. Acabou mais rápido do que a garantia. Porém durou tempo suficiente para me arrepender das perdas. 
Desci. Como quem busca água no poço. Desci, tão fundo que quase criei raízes. E quando me dei conta, desci mais. E só sairia dali, quando a água brotasse do chão. Então cavei. Determinada. Cavei. E achei. A Terra é redonda. E enfim respirei ar fresco.   

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