ATO
I
Alguns braços tentaram me parar
E eu perseguia as luzes mesmo sem saber que vinha
O vestido esvoaçante me detinha
E pelo ar senti um cheiro familiar
Cheiro de quem está há muito tempo em pé
Ao pé da porta
Teu olhar de espera me livrou das várias mãos que buscavam me prender
Ao enlace de mãos
Ao toque dos dedos
Foi possível ver as nuvens em seus olhos
Havia um caminho acimentado e cinzento a percorrer
Muitos rostos e lágrimas para lavá-los
Uma mão para amparar
E o banco onde o descanso parecia certo
Os espinhos
E um estrondo
A cor ficava entre um amarelo vômito e um verde clorofila
Nenhuma corrida cabia
Nenhuma tentativa de não se deixar contaminar
Talvez tuas nuvens tenham feito algo
Talvez fossem nossos olhos
Ou nossas bocas
Ou a forma como me via
Entre a despedida e o reencontro
Chorei
Um choro de quem não aguentava mais lavar o rosto
Um choro seco
Sem compromisso
Um choro de quem vivia para isso
E em mãos
Uma imagem
Não era você
Nem eu
Nem os que morreram
Éramos todos
De uma vez
Em alto relevo
Era possível sentir a textura
O choro ganhou cor
Mas nunca soube dizer qual
Entre matas
Uma sala
Meu lugar parecia seguro e sonoro
Mesmo que em mim nada cantasse
Teus olhos me viram no chão
Chorando
Não tive forças
Desabei
Não consegui te abraçar
Não merecia mais
Não queria mais estar ali
Desamparada de mundo
Mas você me levantou
Me elevou até seu peito
Havia um choro ainda ali
Que não podia ser ouvido
Mas dentro de mim gritava em alívio
Te via ali
Vivo
Forte
E sorria
Como se nunca
Nada
Tivesse nos matado
Nos massacrado
Como se nunca tivéssemos saído do baile
II
no toque mais inesperado
a mão que amacia a pele
no encontro da carne
no enroscar dos dedos
delicados e precisos
que se colocam de forma natural
entre nós
não há nada que não seja natural
eventual
ou contemplativo
no toque que recebo
sinto a pele se abrir
e é você que chega
suave
preciso
meu
III
consigo olhar no fundo dos seus olhos
consigo olhar no fundo mais fundo dos seus olhos
consigo olhar no fundo, do fundo dos seus olhos
e esqueço o que ouço
esqueço que te ouço
só te vejo
só te vejo ali
no fundo mais profundo que há
no encontro da carne
no enroscar dos dedos
delicados e precisos
que se colocam de forma natural
entre nós
não há nada que não seja natural
eventual
ou contemplativo
no toque que recebo
sinto a pele se abrir
e é você que chega
suave
preciso
meu
III
consigo olhar no fundo dos seus olhos
consigo olhar no fundo mais fundo dos seus olhos
consigo olhar no fundo, do fundo dos seus olhos
e esqueço o que ouço
esqueço que te ouço
só te vejo
só te vejo ali
no fundo mais profundo que há