entre o morro vermelho e o camargo corrêa

o morro vermelho não parece combinar com
o camargo corrêa que fica ali ao lado essa
paisagem não parece combinar com nada
do que conheço
desaprendi
a andar entre multidões
meus pés querem falhar a todo
instante e pareço me dissolver nos pingos que caem
o morro vermelho está meio laranja
o camargo corrêa tem agora
um verde claríssimo
as escadas muito conhecidas e gastas
não me sustentam muito bem
caminho por esse chão fazendo
um trajeto já muito conhecido [e gasto]
tentado manter os passos firmes
atravessando a rua antes do sinal fechar
não posso parar de andar
não posso parar de mover os pés
não posso parar para olhar pra trás
tudo me é estranho
até mesmo o mover dos braços ao lado do corpo
até mesmo o peso que meu corpo tem
enquanto ando
a cada degrau respiro com mais dificuldade
caminho como quem está prestes a cair
não vi o buraco cair
nem vi a profundidade dele
esse dia não é sobre ontem
vivi esse dia do fim à algum tempo
entre papéis que precisava deixar e a vontade de ir pra casa
entre papéis que ninguém irá ler e a vontade de chorar
na rua
no meio da faixa
um desespero para que isso acabe logo e eu possa voltar pra casa e lamentar
a chuva que não caiu antes
que não me encharcou
que não me levou também
ao fundo
fiz esse trajeto uma centena de vezes quando mais nova
e nada
e ninguém ali
me parece habitável
nem as livrarias disputando um espaço entre as lojas de roupas
nem o caminho até um pátio reformado
grande
largo
se eu precisasse encarar uma poça d'água teria a certeza de que
o rosto
esse rosto que porto
também é estrangeiro ao corpo que caminha
e só deseja
um canto
o lar
para enfim descansar


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