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Ida

Sinto o passar do tempo no meu corpo Sinto o cheiro O gosto O suor O ardor de quem mudou e não voltará a ser Nada do que foi e do que ficou Sinto a onda me levar E não é para lavar Vou embora de vez Ou invés de lutar eu vou E se boiar não bastar Sento na estrada e espero o momento certo Espero pela sombra pela dobra pela ida Sinto o passar do tempo na pele Sinto os ossos O arder O desprender O morrer contínuo e longo E eu vou Embora 

(hoje)

tenho morado na dor. onde nenhum ar é leve nenhuma onda é suave e eu já não sou nada. onde nada sobressai ou sobrevive. tenho morado na dor por falta de lar. por falta de ar. por falta de amar. tenho morado na dor porque amei demais. ou porque nunca soube do amor. mas tenho morado na dor porque só lá posso amar. nada aqui é sobre a dor do amor ou sobre amar e doer. nada aqui é sobre sobreviver ao amor ou ao desamor ou a um tipo qualquer de dor. nada aqui é sobre um outro. nada aqui é sobre um outro além de mim. sobre um amor além do próprio. além do óbvio que nasce aqui. tenho morado na dor porque dói porque mata porque me sufoca respirar. tenho morado na dor porque qualquer tentativa de sair correndo não resultou não resolveu nem amenizou. tenho morado na dor porque mesmo quando não faz sentido tudo que tenho é isso aqui. é onde moro (hoje). onde me sufoco. e morro. e nasço. todos os dias. tenho morado na dor. como forma de sobreviver. ou tentativa de sobrevivência. tenho morado na d...

Quando ouço os martelos

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Um canto. Uma voz.  Escuto atenta todas as notas. Cada vez que o martelo bate, minha mão treme. Ouço as pisadas nos pedais. São tão firmes. E é com atenção que acredito nas decisões que toma sob as teclas. Usa suas mãos com determinação. Sabe os motivos, e direciona com dedos o caminho à seguir.  Não entendo nada disso. Quero dizer, não entendo a razão de me fascinar tanto. Escuto as execuções impecáveis de cada trinado, de cada ligadura. E, ainda sem entender, transborda sob minha pele cada nota, cada tom, e cada silêncio.  Escuto com prudência e medo. Medo de não ser mais capaz de compreender as figuras musicais que saem daí. Medo de ignorar algum legato, e ficar dispersa no ar, como vento que voa livre. Gosto das cinco linhas, de como sou livre em segurança. Comedida, você diz. E aprendi a ser livre na segurança de pousar sob o pentagrama simétrico, reto, linear, e perfeito. Se descanso ali, sei que sou livre em qualquer lugar, a qualquer hora. Indo de uma pág...

E N C O N T R O

passos. passa. você em mim. tudo passa. com seu passo largo. passa. e passa. passado. futuro. nada no presente. passamos. você e eu. tudo passa. de você pra mim. tudo passo. devagar. passado em um futuro nada distante. passada. passo. você. você. passa. por mim. sem deixar. sem ficar. passado. você passa. e eu passo. nós passamos. passado. é essa nossa história.

Dentro Do Que Eu Sou

(Ao ouvir Helio Flanders. Um ouvir em mim. Com fragmentos de Dentro do Tempo Que Eu Sou) Me encontro sentada. Me encaro. Como quem se vê através dos próprios olhos. Sem espelho. Se habito em mim, É por saber quem sou. Um eu, Feito de nós. De nó. Feito de um está Só. Me encarando, lhe vejo. Sem solfejar. Sem tentar. Me encaro, Com olhos grandes, Mas não de lobo. Me encaro, Estou sentada. Eu não me canso de olhar. E você segue sendo, Meu velho lugar. Meus olhos, Que recaem sobre mim, Também são os olhos, que vêem o que você vê em mim. Nós temos tempo E sinto uma presença Nessa sua ausência. Na sua ida, Uma vontade de ser, Uma vontade de lhe rever, De sentir, De viver. Mas só enquanto consigo me encarar. De cara lavada, Limpa, Sarada. Só enquanto, me ver, É me reconhecer em mim.

S O M

Um tom, de voz Ou dom De voz Um lugar algoz Espaço fatal Espaço de um outro Que se arrasta sobre mim. Parte do não, Miúdo do sim. Um tom Um dom Da voz. Que voz, Se vai Entre a vida E a morte C'est la vie La mort. 

Pássaros que vi

Ninguém os vê. Se passam, Se voam, Se morrem. Ninguém os observa. Se caem, Se sopram, Se morrem. Ninguém os acolhe. Se dormem, Se comem, Se morrem. Ninguém os toca. Se levam choques, Se constroem ninhos, Se morrem. Ninguém se incomoda Quando ao chão Caem cansados. Não dormem. Morrem.