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Hesitação

não te vejo há alguns dias e não respiro o mesmo ar porque tem sido estranho olhar o espelho não me vejo nem te vejo me engano e sinto que passa pelos dedos toda a minha sorte sinto meus pés falharem já não consigo estalar os nós erro o ritmo e voa solto pelo meu corpo o medo de ter certeza sobre agora ou sobre qualquer coisa ou lugar que me ligue que me instigue ou marque nenhuma certeza vem de mim nenhuma característica é forte o suficiente preciso respirar mais devagar mais devagar até acabar de vez com essa dor com a vontade de que doa mais não te vejo há cinco dias e sei o que sinto quase como um buraco que me engole ou como se eu o engolisse não sei se por cima ou por baixo se é de dentro para fora ou o contrário mas por favor me mostre sua beleza e não vá embora não saia me mostre sua beleza e fique por pelo menos cinco dias ou o suficiente para que eu possa me lembrar depois da sua partida

AMOR

eu o conheci por seus olhos. você sempre confiou nele. e isso. agora. mora em mim. entre as tormentas e os bons ventos. sempre fomos nós. você sempre iluminou meus olhos. e me ajudou a alimentar a alma. você é mais do que eu merecia. e dói não conseguir lhe dizer. me faltam todas as falhas palavras. que nunca preenchem os espaços. você sempre olhou por mim. e teu cuidado me fez grande. e forte. e confiante. e lhe agradeço por isso. porque me deu a alegria de te ver crescer. de ir além da margem. 

Poço

desci o mais fundo que pude para garantir que as feridas fossem feitas refeitas e nunca compensadas cheguei a juntar cacos cortei os dedos quase arranquei a mão desci desci o mais fundo que pude Pude enxergar a mão  –  pousou suave, macia e delicada  –  me envolver e alimentar, com alguma presteza que nunca esperei e com uma determinação assombrosa. Surgia em mim, com uma timidez desnecessária, uma fúria desconhecida.  Poderia ter sobrevivido apenas com uma dose. Mas eu sabia, precisava me encher para satisfazer a alma. O alimento era irreconhecível. Meu paladar, já muito gasto, foi obrigado a tolerar o não sabor e com repulsa engolir todos os pedaços. Uma substância que só desce com o auxílio de um colher de pau que o empurre goela abaixo.  Desceu. Assim como eu desci. E sem volta, permaneci.  Depois de tantos arranhões soube que só um sopro, muito forte, levaria para longe todo sangue que ficou sob a pele. Torcendo para que não arde...

Enquadramento

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Repetir metodicamente todos os passos Todos os quadros e molduras Repetir o movimento Sem qualquer rastro de leveza Repetir Ver o rosto cortado simetricamente E copiar todos os vícios Olhar por cima do ombro por trinta segundos Medir sistemicamente todos os tempos Como se tivesse dentro de si um cronômetro Dono da exatidão Da definição de qualquer forma perfeita de manter o tempo vivo E se capturá-lo com precisão Poderá ver que todas as vezes Me repito Com algum propósito de viver Ou de ver o tempo transcorrer lentamente Sobre meus olhos Hei de saber dos seus ângulos De como são múltiplos e precisos E das nunces que banham o contorno do seu corpo A passagem pelos túmulos até a volta ao convento é brusca passa por mim como por você de um passo ao outro sem ter muito o que dizer Então vejo E nego o que vejo Porque perdi a noção do tempo

Ida

Sinto o passar do tempo no meu corpo Sinto o cheiro O gosto O suor O ardor de quem mudou e não voltará a ser Nada do que foi e do que ficou Sinto a onda me levar E não é para lavar Vou embora de vez Ou invés de lutar eu vou E se boiar não bastar Sento na estrada e espero o momento certo Espero pela sombra pela dobra pela ida Sinto o passar do tempo na pele Sinto os ossos O arder O desprender O morrer contínuo e longo E eu vou Embora 

(hoje)

tenho morado na dor. onde nenhum ar é leve nenhuma onda é suave e eu já não sou nada. onde nada sobressai ou sobrevive. tenho morado na dor por falta de lar. por falta de ar. por falta de amar. tenho morado na dor porque amei demais. ou porque nunca soube do amor. mas tenho morado na dor porque só lá posso amar. nada aqui é sobre a dor do amor ou sobre amar e doer. nada aqui é sobre sobreviver ao amor ou ao desamor ou a um tipo qualquer de dor. nada aqui é sobre um outro. nada aqui é sobre um outro além de mim. sobre um amor além do próprio. além do óbvio que nasce aqui. tenho morado na dor porque dói porque mata porque me sufoca respirar. tenho morado na dor porque qualquer tentativa de sair correndo não resultou não resolveu nem amenizou. tenho morado na dor porque mesmo quando não faz sentido tudo que tenho é isso aqui. é onde moro (hoje). onde me sufoco. e morro. e nasço. todos os dias. tenho morado na dor. como forma de sobreviver. ou tentativa de sobrevivência. tenho morado na d...

Quando ouço os martelos

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Um canto. Uma voz.  Escuto atenta todas as notas. Cada vez que o martelo bate, minha mão treme. Ouço as pisadas nos pedais. São tão firmes. E é com atenção que acredito nas decisões que toma sob as teclas. Usa suas mãos com determinação. Sabe os motivos, e direciona com dedos o caminho à seguir.  Não entendo nada disso. Quero dizer, não entendo a razão de me fascinar tanto. Escuto as execuções impecáveis de cada trinado, de cada ligadura. E, ainda sem entender, transborda sob minha pele cada nota, cada tom, e cada silêncio.  Escuto com prudência e medo. Medo de não ser mais capaz de compreender as figuras musicais que saem daí. Medo de ignorar algum legato, e ficar dispersa no ar, como vento que voa livre. Gosto das cinco linhas, de como sou livre em segurança. Comedida, você diz. E aprendi a ser livre na segurança de pousar sob o pentagrama simétrico, reto, linear, e perfeito. Se descanso ali, sei que sou livre em qualquer lugar, a qualquer hora. Indo de uma pág...