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Imagens do Rio de Janeiro III

consigo visualizar as nuances e me pego enxergando embaçado e é pelos olhos esses mesmos olhos que se vêem diante de um espelho cortado onde a mão se ergue e parece permanecer no ar pairando sem muita força e sem vontade de tê-la vejo um rosto sobre o travesseiro um corpo que dorme tranquilo ou que busca isso posso ficar ali por horas consigo visualizar todos os fios e penso nos outros corpos que deixei naqueles que não vejo a algum tempo na dor que me cortar fico parada pensando no quanto demorei para ver esse corpo na minha frente e agora ali diante de mim consigo visualizar uma parte muito comprida da minha vida uma parte que se cala diante do outro não por medo não por temor mas para visualizar todos os detalhes e é deles que se trata se for para tratar de algo é eles que vejo sobre a cama os detalhes de uma vida que não é só um corpo que não é só um rosto imagino as coisas que não sei as que nunca saberei e as que deixei passar por algum relapso vis...

Imagens do Rio de Janeiro II

eu vendo o mar.   digo, eu vendo o mar daqui.    eu vendo o mar ao vivo.    eu. e o mar.    e se digo em francês, penso na minha mãe.   se caminho do seu lado penso que nunca vi nada tão grande. nem o branco das nuvens.    e escuto seu som que parece me dizer pra ficar. pra ficar mais.    ouço o mar me dizer que voltar pra casa é voltar pra cá.    casa.   tenho ouvido o som desse lugar. dessa casa. dessa casa que sente dor. que ver o mar. que quer porque quer ficar.   eu vendo o mar penso em algumas histórias.    mas é vendo a areia que me agarro ao que aprendi mesmo sem saber. com algum custo a imaginação te coloca em um lugar incontornável.    com muito custo você se coloca na vida. bem de frente.    digo vendo o mar porque esse encontro é sobretudo  único  e i...

Imagens do Rio de Janeiro I

Pareço me reconhecer nesse mar que vejo pela janela Como se nunca estivesse estado em outro lugar longe daqui Como se nada fosse outra coisa que não essa Aqui Vendo pela janela Olhando esse amar Encarando os livros e as vozes Pareça ser atingida por tudo aquilo que venho deixando de lado Como quem está pronta para um tiro final Que acerte de vez Bem aqui Nessa janela E deixe uma marca (que a essa altura já não saí) Para quando eu voltar E não mais tiver essa janela na minha frente Eu possa ver o mar Todos os dias

Entre Espaços

tenho tencionado abdicar desse percurso e da falta da mão que antes me cobria para seguir mais amena ou cheia do que desconheço por habitar em uma certeza duvidosa e latente como a alma que me prende aqui nessa baixada que é te ver flutuar soberano pequeno e quase morto quase lá onde não me cabe o corpo nem o olho nem um traçado da dor que me corta sete vezes ao dia fico por acreditar na miséria do mundo como a possível salvação que nunca veio e caminho pisando em ovos de serpentes garantindo tudo e nada que conservo em vida na dureza das pedras que hoje cobrem o corpo dela vejo as nuances que tracejam sobre nós e o repúdio com que me movimento cristaliza o não que brota todas às vezes que mastigo a angústia por medo por medo de admitir sua morte

ATO

X tenho visto as peles e as dobras sobre o corpo tenho visto seu reflexo em mim e me dói me mata todas as vezes que me vejo longe de ti um risco se fez aqui um risco em mim com saudade de você que se esvai todas às vezes que me falta a fala e o medo só o medo me alimenta porque me mantenho longe e espero nunca chegar tão perto de lhe tocar XI se me curvo para olhar pela fresta não sou eu ali não sou eu em ti não sou eu que te acalanto e me curvo esperando encontrar uma chance de me aproximar do teu cheiro olho devagar olho de lado e evito olhar demais mas já me dói o corpo e as mãos e todos os nãos que alimento em mim pretendo chegar perto e me colocar diante de ti como se a cura (se couber a cura) me proporcionasse um arrependimento por lhe dizer sim dentro de mim e matá-lo por fora cabe a mim ou enfim destranca-lo daqui XII me despeço quantas forem necessárias me despedaço quantas vezes for possível e me deito pronta para cair no próximo ...

ATO

VII Há uma apreensão no meu olhar Na forma como me movimento Como movimento as mãos Sinto que morro A cada dois segundos Quando as pernas faltam Meu estômago revira Como se me corroer por dentro fosse a única forma de estar vivo Vejo seus cabelos voarem pela noite E não posso mais me segurar O que tremia agora canta Com todo receio que me cabe Recuso o olhar cansado Convido seus lábios a dançarem Me abro Me deixo a vista Esperando o convite O sim Que me deixe entrar e habitar No refúgio mais amplo Vasto Mas me engano Você arrasta sobre mim as mãos Os calos Tudo que não pode jogar fora Me engano Quando te vejo por cima dos olhos Uma névoa te engole Me engano Porque não te vejo Sinto que morro A cada dois segundos Porque lembro do seu vulto Que me envolve   VIII  Você está sentado E tem os olhos compridos Que me tomam inteira Em cada centímetro sinto uma fincada Desse corte abrasador que refaz as minhas curvas Com receio de que caia ...

ATO

IV Há em mim, os outros que já não são monstros, nem espectros. Vejo por sobre os ombros aquilo se foi. O que não dói mais. Vejo dentro as afrontas e todo desdém que jogaram sobre mim. Nada dura muito tempo. Repeti. Como o único verso capaz de me recolocar no lugar. E aqui, é onde me lembro dos outros vinte ou vinte um que me remanejam para dentro. Como os únicos obstinadamente capazes de me recolocarem no lugar. Entendi a pouco tempo que a morte é um risco permanente na face. Uma marca permanente no corpo. Na pele. Nos jornais. Na calçada da minha casa. E estou a ponto de me riscar. De ficar. Lá. Porque me lembro que nada dura muito tempo. Porque lembro que não há cura. Porque lembro que ainda estou. Aqui. V Não somos nós Não somos dois Não somos Só nós Somos aquilo que se esconde Que se nega Que omite Mas somos algo Para além do sintomático Do fatalismo Da constatação Não somos só isso Somos algo além disso Além do alcance das mãos Além do toqu...